quarta-feira, 27 de abril de 2011

White Horse minha bike - Fazendo a minha parte

Karina Ninni - O Estado de S. Paulo

Paulo Saldiva conhece mais do que ninguém o mal que o ar de São Paulo pode fazer. Não pelo fato de ser asmático – o que o incentivou a se locomover de bicicleta pela metrópole desde os anos 70 –, mas porque dedica a carreira ao tema. Professor de Patologia Pulmonar na Faculdade de Medicina da USP, ele coordena o Laboratório de Poluição Atmosférica da universidade.

MONICA ZARATTINI/AE
MONICA ZARATTINI/AE
Todos os dias, Paulo Saldiva vai de bicicleta trabalhar. Ele vai do Itaim até a avenida Dr. Arnaldo

“Ia para a USP de bicicleta em 1972, por aí. Como já remava na raia olímpica – fiz isso por dez anos –, acabei me acostumando ao exercício físico.” Ele afirma que, em São Paulo, é pior estar dentro do carro: os poluentes não têm por onde sair.

A opção pela bicicleta já provocou situações curiosas. “Uma vez uma de minhas doutorandas me deu um carro. Para ela, o único motivo pelo qual eu não ia para a faculdade de carro era falta de dinheiro”, lembra o médico, que devolveu o presente.

Saldiva afirma que sua militância não é só ideológica. “Gosto mesmo de pedalar”, garante. “Você não pode falar que poluição faz mal e andar por aí de jipe Cherokee. Para que as pessoas ouçam o que você diz, tem de haver coerência.” Um exemplo de falta de coerência é o Instituto do Coração, onde Saldiva trabalha: ele não pode entrar de bike no estacionamento. “E é um lugar cheio de cartazes para as pessoas se exercitarem.”

Há quase 40 anos pedalando, Saldiva foi atropelado pela primeira vez há poucas semanas. “Foi no Jardim Europa. Uma mulher quis aproveitar o farol fechado para entrar na contramão e me pegou”, diz o médico, que sofreu escoriações.

Saldiva e a família, mulher e dois filhos já adultos, têm só um carro. “Os filhos andam de ônibus. Minha mulher vai para o trabalho a pé. Trocamos lâmpadas para economizar energia e nosso banho é de 5 minutos.”

Crítico do debate ambiental, o médico acredita que ele tem de incluir o homem e o ambiente urbano. “Se você andar a pé, tomar banho de canequinha, ficar no escuro à noite e não comer carne, suas atitudes vão demorar décadas a surtir efeito e o primeiro beneficiado vai ser o urso polar. Para os comprometidos com a causa, isso basta. Para chamar a atenção dos outros, é preciso chegar mais perto. Uma nova linha de metrô tem um reflexo imenso na vida e na saúde dos cidadãos.”




terça-feira, 26 de abril de 2011

ouvir

Re-INVENTAR

Na Itália, existe um pianista, compositor e maestro chamado Giovanni Allevi. Um dia, ele recebeu uma carta da Helena, também pianista. Ela estava muito triste porque tinha perdido todo o movimento da mão esquerda e não se sentindo mais capaz de tocar, afastou-se completamente do piano.

Ele ficou tocado pela história e não pôde deixar de se imaginar na mesma situação...

Como seria estar de frente ao piano sem poder fazer uso de sua mão esquerda, a responsável pela base, pelo chão de qualquer música executada neste instrumento?

Naquele momento, ele decidiu ir além. Sentou-se ao piano, ignorou a existência da mão esquerda e deixou apenas a direita sobre o teclado. Assim nasceu a composição Helena.

Quem nunca perdeu algo importante?

Aquilo que perdemos e não volta mais faz falta...

Mas não podemos ficar parados. Temos que continuar!

Criar para sermos melhores, para aprendermos a pulsar no mundo.

Aquilo que ficou é o nosso tudo agora, e é sempre o suficiente para tocarmos, da maneira mais linda, nossa vida, seja com a mão direita, com o pé esquerdo, com um olho, com os movimentos de cabeça, com meio ouvido.

Parar, ouvir, trocar; experimentar, ressignificar, tocar (em frente)...

A vida é feita de troca.

E este é o combustível que nos move.

Escrito por Sara Bentes e Cláudia Cotes, da Vez da Voz